Analu Araujo

artistas 

1982

Campina Grande, Paraíba

 

A pintura de Analu Araujo compreende uma diversidade de camadas de visualidade e significação. É possível vislumbrar em sua obra o paradoxo contido na frase do poeta Paul Valéry: o mais profundo é a pele. Em suas imagens e através de sua prática pictórica, a dimensão do profundo emerge e se assenta, visível, na camada de superfície de seus suportes. Essa aparente inversão se dá em função do interesse da artista por tudo aquilo que diz respeito às estruturas ocultas e invisíveis da biologia humana.

Embates entre a emocionalidade instintiva e racionalidade científica se fazem presentes em seu trabalho e resultam numa pintura de grandes dimensões, onde organelas e estruturas microscópicas ganham concretude visível em tamanho mural. A amplitude de seu gesto, que pressupõe a fisicalidade da ação pictórica, se vê acompanhada pela permissão ao acaso do comportamento dos materiais – Analu experimenta com tintas e insumos de diversas composições e bases, transformando seu suporte num microcosmo explícito que educa o observador acerca dos princípios da própria cozinha da pintura.

Calcando-se em conceitos da psicanálise, antroposofia, microbiologia e anatomia, a artista nos apresenta um conjunto de obras que contém diferentes comportamentos em relação ao material. Sua pintura contém tanto sua gestualidade irrestrita, manifesta através do controle do material fluido e por vezes do desenho, quanto a lógica livre da mancha espontânea. Em seu trabalho se efetivam as ideias de pulsão psicanalítica e da autonomia do material e de seus próprios pressupostos, unidas à forte referência em concepções visuais herdadas do abstracionismo de Kandinsky, além de outros acenos ao expressionismo abstrato.

Na poética de Analu Araujo encontramos uma prática que nos revela a vontade de conhecimento do avesso da superfície. Em sua obra são latentes os fenômenos biológicos basais do ser humano, como entendidos por diferentes vertentes das ciências e das práticas artístico-espirituais ao longo da história. Sua pintura transparece o desejo de trazer à superfície as profundezas mais insondáveis de nossa natureza psíquica e biológica – o entendimento das microestruturas da vida através do sentido da visão. Seus vigorosos registros cromáticos suscitam os movimentos de tudo aquilo que é velado no corpo e oculto no cosmos, expressos na pintura de suportes tão amplos quanto suas inquietações sobre o visível e o invisível.