h4wnee

artistas 

1991

João Pessoa, Paraíba

A produção artística de H4wnee fala do tempo e de suas justaposições. Através de composições grandiloquentes e alusivas à diversos períodos da história da arte, o artista expressa suas impressões acerca daquilo que parece ser um mundo em perpétuo estado de convulsão. Embebida de referências que aludem desde obras da antiguidade clássica até a lógica do hacking e da intertextualidade, a obra de H4wnee se assenta sobre um arco temporal de imensa amplitude.

 

Essa abrangência exige do artista um vocabulário visual extenso, suficiente para comportar a diversidade de culturas visuais contidas em sua pesquisa. É nessa nota que se evidencia a eloquência de H4wnee por entre as técnicas clássicas da modelagem, do desenho, da pintura e da escultura. O emprego virtuoso das mãos aliado à suas observações sobre as perversidades da tecnologia resultam num corpo de trabalho que integra o senso de humor ao senso crítico, ambos igualmente afiados e atentos.

 

Contudo, a obra de H4wnee não se encerra na provocação. Mitologia, tradição e arquétipos se amalgamam com cultura pop e intertextualidade numa trama intricada de sensibilidade e significados. Passando pelo academicismo de Cabanel, pelo Jardim das Delícias de Hieronymus Bosch e aterrissando na virtualidade do contemporâneo, o artista se insere numa longa linhagem de pintores que discutem as noções seculares do sagrado e do profano. H4wnee traz à tona em suas imagens inquietações a respeito de conceitos-chave da filosofia, como ética, moralidade, sacrifício e morte. Seja através da iconografia cristã do renascimento ou de recursos apelativos do barroco - o branco do gesso, os dourados e a expressão exagerada de seus personagens -, o artista aborda a tradição e a religião com a paciência de quem olha pra traz com atenção, para melhor entender o presente e conseguir vislumbrar algum tipo de futuro.

 

Chapas, circuitos e refugo tecnológico integram a obra de H4wnee como uma declaração de amor ao universo da eletrônica. Seu repertório visual, amplamente latino e cristão, se funde com a universalidade das manifestações expressivas da internet e do universo cyberpunk, da inteligência artificial e da robótica, e alcança um discurso que vai além da tecnofobia ou do catastrofismo. Por entre a exuberância carregada de suas composições é possível perceber um sentimento ambivalente em relação à saturação visual e o vazio espiritual do contemporâneo. Na ausência de um senso de divino ou moral norteadora, talvez o senso de propósito esteja contido em seu próprio fazer artístico, na cultura de massa ou nos elementos compositivos presentes em sua obra, habitualmente considerados como descarte, mas que constituem, sob a ótica de seu trabalho diligente, verdadeiros exemplos do triunfo do engenho humano.