iaco Viana

artistas 

1987

São Paulo, São Paulo

 

O que nos mostra uma paisagem, ladeada de quadrados que destacam as cores que a compõem? Qual sentido se pode depreender de gotejamentos pretos sobre uma tela branca? Estas e outras perguntas nos vêm à cabeça ao observar os trabalhos de Iaco Viana, em busca do que seus signos nos oferecem à interpretação.

“Descromático”, como ele nomeia, mas ao mesmo tempo repleto de cor, Iaco Viana pinta ciclos e faz pontes – entre os mundos visíveis e invisíveis que somente a arte pode interligar. Como o artista define, suas cores são fruto de estudos sobre diversos materiais, gerando essa “discromia” que é, na verdade, a corporificação de cores inventadas. Além da criação de cores, essa alquimia chega à criação, até, de outras formas de pintar, como ao misturar materiais e matérias, gesto e máquina.

Cores e arte podem, como nos disse René Magritte (1898-1967), tornar os pensamentos visíveis, e Iaco torna suas reflexões sobre o mundo observáveis em sua obra, ao mesmo tempo em que nos convida a construir nossas próprias percepções. Os quadrados em suas obras são muito além de enquadramentos: são símbolos que remetem à ordem – e à desordem do mundo. O quadrado traz uma forma de ver o mundo, um enquadramento, mas também nos convida a olhar ao seu redor e potencializa significados: o que está em interação com esta forma? O que vai além dos seus limites?

A fixidez da forma quadrada, no trabalho de Iaco, adquire, portanto, outras possibilidades. As aparentes fronteiras que os quadrados trazem são amplificadas, pela consciência do artista de que o que oferece ao mundo é um signo. A estes pensamentos, soma-se sua percepção sobre as curvas dos arco-íris ou pelos círculos concêntricos de spray: fragmentos de outros mundos. No que nomeia uma arquitetura da desconstrução, seus trabalhos nos trazem uma noção de fronteira, enquanto lugar de “contradições incomensuráveis” (como comenta Homi Bhabba), espaço de deslocamento e desterritorialização – para onde cada um de nós vai, ao ler as obras do artista.

Ciclos, como a vida, pontos de contato entre a natureza e o céu são elementos fundantes de sua obra – aparecem de um modo ou outro, como na automatização, com o borrifador: máquina de pintar que leva a mão humana aos limites da criação. Texturas múltiplas surgem camada a camada em seus trabalhos, que usam de técnicas diversas para levar a arte além da beleza, da forma ou do significado – aproximando-a do ato criador e de sua relevância por si.

Iaco Viana não se vê sendo outra coisa no mundo, além de ser artista, e suas referências da história da arte são múltiplas, como o impressionismo e o expressionismo. O artista, ainda, vê em Rembrandt (1606-1669) ou artistas de outras escolas fontes para sua produção – o percurso na academia, na Escola de Belas Artes, claro, serviu-lhe como base – à espera das subversões que o permeiam até hoje. A este caminho se soma a vivência das ruas, as origens na periferia de São Paulo, pertencimento que também aparece em suas obras, seja na presença de uma tipografia de bar, como em “Brahma litrão”, ou na percepção de que a cidade é feita das cores que cada um inventa.

Hoje, as relações com a natureza no trabalho de Iaco se sobressaem: noutros momentos, sua interação com o ambiente urbano era a poética que o movia. Mas, entendo que é no espaço urbano em que a estética da diferença natureza/cidade se sobressai. E ainda: são as formas quadradas e retilíneas que destacam o que é curva - o que é natureza, portanto. “Um pouco sobre tudo”, de Iaco Viana, é bastante sobre muitas coisas – mas, como nos demonstra seu trabalho, também é “de tudo e mais um pouco”, sobre si mesmo, sua trajetória, como vê o mundo e, principalmente, sobre as possibilidades de significados que nos lança este seu convite a nosso olhar.