Matéria Humana
Exposição e happening: Ricardo Woo

exposições

Texto crítico: Beth da Matta

Entre NY e São Paulo, e a Bahia, Ricardo Woo, transita e desenvolve a sua pesquisa entre o barro e o fogo, no desenho e na pintura, com práticas que ocupam parte dos lugares de experimentação do artista. E dentre essas possíveis presenças, algo prevalece quando ele se diz, às vezes, se encontrar num estado brutal quando desenha. O ser bruto da experiência ou o que se deixa afetar pelo que observa. Woo não domina suas paisagens, ele prefere se colocar num lugar de observador do outro, mas não deseja copiar suas formas exatas. Apesar de grande domínio técnico, ele se detém ao que escapa do movimento do outro corpo em alteridade com o seu próprio corpo do aqui-agora. Esses escapes podem ser vistos nos três desenhos feitos a partir da observação do corpo da performer Alexia Lorrana. Também percebo o mesmo nos desenhos em carvão sobre papel que ele nomeia abstratos, mas que, ainda assim, são carregados desses corpos, ou seja, mesmo na solidão de um papel em branco, o gesto, materializado pelo carvão, rememora esses mesmos escapes. Paradoxalmente, são fluidos, densos, etéreos e sensuais.  Já nas esculturas em cerâmica, a ausência do pincel ou DE um lápis de carvão intermediando a ação, a duas mãos do artista se encontram. Juntas, modelam o barro com corpos femininos num repouso forjado pelo gesto e pelo fogo.

Merleau-Ponty fala que um ser bruto pode ser visto como o solo originário da experiência. Nas palavras de Alvim (2014, p. 277):

 

"O ser bruto, o ponto originário de encontro entre sujeito e objeto, de onde parte tudo, fundo de onde tudo brota, consiste, portanto, em um campo de presença, temporal, centralizado, aqui-agora, na experiência imediata. Essa experiência compreendida como uma síntese que engloba eu e mundo, eu e outro, passado, presente e futuro. Um fundo invisível, rede de significações expressas na forma do gesto corporal - movimento ou palavra - que instauram o visível como objetos culturais."

 

Seus desenhos abstratos em carvão sobre papel enunciam esse desejo de pertencimento. Mas, pertencer a quê? Não importa, Woo deseja essa especulação sobre a presença do corpo e a conexão desse corpo que sucumbe ao gesto.  Nos cabe agora apreciar esse encontro. O que escapa, e o encantamento do artista diante da matéria. Seja num vulto quase fumaça, o princípio de um corpo aqui, acolá.

Nos breves momentos que estive com Ricardo Woo, algumas palavras me grudaram na memória. Uma delas, o ser bruto, brutal e selvagem quando ele se refere ao desenho, ao gesto do desenho. Segundo Alvim (2014, p. 67), para Merleau-Ponty, o espírito selvagem e o ser bruto estão em constante relação de entrelaçamento com o mundo e, para superar o dualismo entre sujeito e mundo, recorre à arte para pensar o processo de criação. Propondo esse processo criativo como formas de acesso ao ser bruto, um corpo-junto-com-o-mundo, que seria a possibilidade de encontro entre o que está “dentro” com o que está “fora”, do visível com o invisível.

 

A performance Matéria Humana, que também nomeia a exposição, foi pensada e idealizada por Ricardo Woo, Alexia Lorrana e Sandra Woo. Ao longo de três meses de encontros  e discussões, eles incorporaram, cada um ao seu modo e entendimento, a matéria, o vivo, além, e porque não, elementos de representação de si. Humana parte da idéia de um corpo emoldurado, de um olhar para esse corpo, a princípio, sem conceito. Um corpo é um corpo. As palavras foram suprimidas a propósito para não contaminar a mente e possibilitar que o corpo do expectador tome para si A experiência do vivo, do acontecimento.

 

Na segunda sala, apresentamos uma pequena parte das tantas pinturas produzidas durante a pandemia em NY. São autorretratos de um lado combinados com imagens de caveiras do outro.  A montagem sugere um caminhar entre esses retratos, entre essas figuras que se assemelham, mas que também se diferenciam uma das outras como quem se destina a se lançar ao encontro de outros, de outras. Nessa série de autorretratos, Woo nos convida a mergulhar nesse emaranhado de formas e contornos que parecem encontros de si com o outro, onde ele se conecta com memória, codificando novos sentidos para que elas se acomodem numa  consciência de um mundo possível.  E esse embate se dá na relação e enfrentamento do eu do outro quanto memória, com  o gesto, o gesto do artista. Essas pinturas chamam a atenção para o controverso sentido imediato da imagem, mas nos possibilita perceber o caráter transitório, passageiro e que, em tempos sombrios gerados pelas dúvidas e angustias da pandemia em 2020, enunciam mudanças importantes na humanidade. A experiência proposta por Woo nos coloca nesse lugar instável e inseguro da impermanência.