Órfãos do Eldorado
exposição individual: Rafael Prado

exposições

Curadoria e texto crítico: Vânia Leal

Eldorado: moldura criativa do imaginário Amazônico

Natural do Norte do Brasil, Rafael Prado nasceu em Porto Velho, capital de Rondônia. Mudou-se para o Rio de Janeiro há 10 anos e lá teve a oportunidade de expandir trocas com artistas e curadores. Entretanto, a experiência o levou a uma imersão profunda acerca do distanciamento de seu lugar de origem.

 

Filho de um migrante nordestino atraído pelo garimpo da Amazônia, e neto de bisavó de origem indígena, Rafael carrega na história pessoal as contradições da região no período colonial. ­Esta fase marcou a Amazônia, região habitada ainda hoje por migrantes, imigrantes, ribeirinhos, indígenas, quilombolas, fazendeiros... Muitos chegaram às terras amazônicas cobiçando o mesmo Eldorado, um paraíso tropical que alimentou o imaginário deste período, como muito bem disse Milton Hatoum no livro “Órfão do Eldorado” – obra que se tornou fonte de inspiração de Rafael na pesquisa e deu nome a presente exposição.

É neste contexto que o artista faz um recorte da Amazônia. Para Rafael, a arte gera um processo de constante interpretação do mundo, o que revela identidades de sujeitos, culturas e lugares. As vivências dele geram possibilidades de estudos de memórias sociais em seu campo artístico, que problematizam questões do tempo e da história ligadas ao período pós-colonial da região.

Nesta exposição, Rafael ressalta a riqueza e a miséria do homem do garimpo. A forte relação do homem com o ouro é uma das características bastante presente no local até hoje: o implante de dentes de ouro na arcada dentária dos garimpeiros é uma particularidade presente na pintura do artista. O ouro nos dentes é como uma primeira reserva e também uma demonstração de status de que esta saindo da miséria.

Ao submergir as memórias destes sujeitos sociais, o artista quer dizer que o continente amazônico é um território que carrega consigo experiências impares, pouco conhecidas do resto do Brasil. Ou seja, a Amazônia esta muito longe de ser um paraíso exótico como muitos ainda a idealizam.

Esta mostra assinala a diversidade de experiências de estar e viver na Amazônia. Estabelece um debate e se manifesta de forma particular na experiência da pintura de Rafael Prado. Eu diria: é um projeto de discussão sobre a Amazônia que leva em conta os sujeitos geopolíticos e suas consequências culturais. Porto Velho aguarda compungido. O Rio Madeira a margem do tempo, dentro da amplidão da noite iluminado pelos faróis das balsas silencia e segue seu curso.

As pinturas de Rafael nos contam histórias ampliadas e conflitos de sonhos de um período importante para compreender a Amazônia atual. Faz-nos refletir sobre o lugar do real e do imaginário contido nestas narrativas de infindáveis lendas nativas como moldura criativa. Dos que se foram, dos que ficaram e dos que ainda estão por vir.

Texto: Vânia Leal