Utopias Piratas
exposição individual: h4wnee

exposições

Curadoria e texto crítico: Mariana Coggiola

Virtualidade e realidade encontram seu ponto de fusão no conjunto de obras apresentado em Utopias Piratas, primeira exposição individual do jovem artista paraibano H4wnee. Sob a lógica do mash-up, do remix e da sobreposição, pinturas e objetos compostos de refugo tecnológico e sucataria ganham vida e narram a distopia contemporânea como tragicomédia sagrada. Ao aludir aos mais diversos universos que coexistem no tempo presente, H4wnee nos convida a refletir sobre sistemas: sociais, artísticos, institucionais, financeiros, religiosos, computacionais e tecnológicos.

A utopia de H4wnee diz respeito à valorização de um conjunto de saberes próprios da estética da gambiarra e da escola da acessibilidade – um sistema de valores que enaltece os conhecimentos empíricos daqueles que ainda têm a necessidade com a mãe da invenção. Neste conjunto, a tela azul não representa um erro fatal do sistema, mas sim um ponto de conexão entre diferentes mundos visíveis, virtuais ou tangíveis. Por meio de representações de ícones da geração Z e de uma grande compilação de personagens subversivos, a produção (compulsiva e nervosa) de H4wnee revela ficções sempre aquém da realidade: em sua obra pictórica vilões e bons moços dançam juntos e não há guarda-chuva moral amplo o suficiente para proteger a todos, e, na condição de observadores, proteger a nós mesmos da evidente fragilidade de nossos próprios sistemas íntimos. Já não há distinção possível entre quem se vilaniza e quem se canoniza e no horizonte assistimos à deriva aos barcos dos piratas – não mais apenas saqueadores de bens, mas agora antropófagos, artistas e civis.

Saturada de referências que abrangem desde o barroco brasileiro até o overprocessing do deep dream, a obra de H4wnee atravessa o espaço-tempo como uma faca afiada e precisa. Paisagens de tradição romântica e palette de minecraft coabitam a galeria com retratos ovais e esculturas em miniatura que remetem à produção de meados do séc. XIX. Citações ao maneirismo, à ícones medievais, ao kitsch, ao hacking e a cyberart são apenas algumas das muitas trilhas de pegadas que H4wnee nos convida a seguir, sem garantia nenhuma de um destino aconchegante e confortável. Aqui, o jogo de transposição da existência virtual para o mundo real e vice-versa parece ser a única jornada viável – e de maior importância do que qualquer porto (ou sistema) seguro de chegada.

Pelo contraste de culturais visuais que o conjunto de obras nos oferece, percebemos mais completamente cada um dos muitos mundos contidos no trabalho de H4wnee e, talvez tão importante quanto, percebemos também os mundos contidos fora de seu trabalho. Utopias Piratas nos sugere que fronteiras claras e totais talvez não existam mais desta maneira, que a separação entre mundos antes distantes é hoje um tanto mais confusa e sutil. Sua realidade turbulenta nos informa sobre a liquefação do tempo e dissolução de estruturas. E nesta nota vale avisar que atravessar uma exposição de H4wnee exige fôlego: no percurso nos deparamos com diversas discussões próprias da história da pintura – com acenos à Cabanel, Matisse, Bosch, à pintura pompier, à John Constable e o paisagismo romântico, fauve e explosividade do expressionismo abstrato. Nos deparamos também com vocabulário próprio do universo dos games: glitches, pixels e o interesse declarado tanto pelo software quanto pelo hardware dos jogos e consoles. Quando nos atemos, finalmente, ao ponto de vista particular do artista sobre a figuração contemporânea, o H4wnee nos introduz questões relativas ao sujeito fragmentado, paisagem distópica, ao corpo ciborg, corpo protético e confissões sobre suas próprias angústias e disforias individuais. Tudo isso sob uma lente multifocal que é ora reflexiva, ora satírica – H4wnee é provocateur por excelência e não nos deixa esquecer nunca de sua paixão pelo antidesign, antiart e pós-deboche, que caminha lado a lado à sua erudição no âmbito da cultura pop e neopsicodelia.